SERPRO – Reforçando as “fileiras” do software livre



Esta é uma daquelas notícias que me deixam super feliz, e que tem tudo a ver com o Open2Tech: a SERPRO, ou Serviço Federal de Processamento de Dados, considerada uma das maiores organizações de Tecnologia da Informação e Comunicações na América Latina, e responsável pelo desenvolvimento de aplicativos e processamento de dados do governo e da Receita Federal, decidiu dar preferência ao software livre através da adoção de políticas internas visando uma maior aproximação da empresa com a comunidade do software livre e/ou opensource, dentre outras medidas que irão fazer com que a mesma opte pelo software livre em detrimento do proprietário.

Esta é uma notícia que tem circulado há alguns dias por sites muito bem conceituados e respeitados, como por exemplo o BR-Linux, o SoftwareLivre.org, o BrOffice.org e o “Movimento Software Livre Paraná“. Ou seja, a notícia é “quente” e muita coisa boa vem por aí, podem acreditar. Podemos perceber que cada vez mais o software livre quebra paradigmas e rompe com aquele velho e ultrapassado conceito (ou preconceito) que diz que “o que é gratuito não presta”. Além do mais, não se trata só de gratuidade, mas também de colaboratividade e liberdade, dois conceitos que permeiam todo o mundo do software livre e que agora estão sendo adotados e “entendidos” por alguns setores do governo brasileiro, com muita razão, aliás.

Segundo as palavras do coordenador de software livre do SERPRO, Deivi Kuhn, a utilização de software proprietário se dará somente quando for impossível a utilização de software livre:

“A partir de agora, a orientação para o software livre fica fortalecida, principalmente no que compete ao desenvolvimento de soluções. Antes, o desenvolvimento usava o software livre sempre que possível, agora usamos software proprietário apenas quando outra solução for impossível. O software livre terá prioridade absoluta”

Tais palavras, vindas de tal pessoa, soam muito promissoras e nos fazem acreditar ainda mais que o software livre tem vida longa, e que o Brasil está no rumo certo, pelo menos no que diz respeito a este quesito. O SERPRO parece também estar se dedicando a um certo posicionamento dentro da comunidade de software livre, pois passa também a partir de agora a colaborar e participar de encontros da comunidade de software livre.

É claro que não cabe, aqui e agora, analisarmos o sucesso ou não do programa “Computador para todos“, do governo federal, e o fato de que a maior parte das distribuições Linux pré-instaladas em tais máquinas serem substituídas por soluções “alternativas” do Windows. Isto é um fato provocado por uma série de outros fatores que com certeza merecem um outro post. Mas o fato da SERPRO fazer parte do projeto “Computador para todos” desde o seu início e agora “passar para o lado” do software livre, nos faz pensar que, talvez, o projeto acima citado ainda tenha chances de melhorar seu desempenho, e a taxa de substituição dos sistemas operacionais livres por sistemas operacionais “pirateados” talvez caia. Quem sabe a SERPRO não dá uma “mãozinha” neste sentido, uma vez que aparentemente agora está investindo pesado em treinamento. Quem sabe todo o know-how obtido não possa ser usado na capacitação daqueles setores e empresas que trabalham diretamente com o programa “Computador para Todos”, e assim, este projeto funcione realmente para diminuir a inclusão digital, e o que é melhor, diminuí-la usando software livre.

Parece, pelas palavras do Sr. Kuhn, que finalmente alguém resolveu entender que software livre não é só “deixar de pagar licença”. Que software livre é evolução na maneira de pensar, no modo de tratar aquilo que se produz e na maneira em como isto será disponibilizado à comunidade. Parece que, finalmente, o software livre deixa de sofrer com os estigmas que o prejudicaram e o afastaram por tanto tempo das massas e do “alto escalão” (dois extremos, não?): o desconhecimento, a incerteza e o medo.

Cada uma destas três palavras enquanto “conceito” (desconhecimento, incerteza e medo) provocam desastres em qualquer âmbito, onde quer que estejam presentes, e são interligadas. O desconhecimento leva à incerteza se o software livre é realmente um bom negócio ou não, e o medo é o resultado final desta tríade nefasta, afastando pessoas, empresas e governos. Isto, aliado às pressões “bem de leve” mas eficazes que empresas desenvolvedoras de software proprietário sempre exercem, seja na forma de propaganda ou na forma de propagação de inverdades, contra a utilização e propagação de algo que fere seus bolsos, acabou por literalmente matar, muitas vezes, qualquer tentativa de abandonar o “velho” e optar pelo “novo”.

Acredito que agora, com a atitude tomada pelo SERPRO, e também com a atitude tomada por outros setores do nosso governo e também de tantos outros por aí, a coisa comece a mudar. Talvez dentro de algum tempo o software livre não seja mais visto como “coisa de nerd”, ou pior, como “produto vagabundo”, e passe a ocupar seu lugar de direito no “panteão” das coisas que têm algo a oferecer em prol do desenvolvimento social e tecnológico.

Dá pra notarmos algo bem sutil ao navegarmos pelo site do SERPRO: o link “Downloads” contém uma lista bem interessante, e podemos ver ali itens como Firefox, BROffice e Fedora, dentre outros. Ou seja: somente softwares de código aberto. Muito legal, não? :)

Além disso, no mesmo site, existe um grupo de menus chamado “Tecnologia”, e dentro deste podemos ver uma opção chamada “Software Livre“, onde o SERPRO fala um pouco mais a respeito do software livre em si. Detalhe, não há menção, em parte alguma do site (pelo menos não encontrei), a qualquer tipo de software proprietário.

Não sei até que ponto este posicionamento do SERPRO irá afetar ou não a forma de distribuição e licenciamento dos softwares desenvolvidos pelo mesmo (todos “gratuitos”, diga-se de passagem, e dirigidos a um nicho específico, na maioria das ocasiões), como por exemplo os softwares utilizados para geração e entrega das Declarações de Imposto de Renda, dentre outros. Mas podemos esperar, acredito eu, por uma maior colaboratividade entre o SERPRO e diversas outras entidades, empresas e pessoas ligadas à comunidade do software livre (o próprio SERPRO já afirmou que deseja isso, aliás), levando assim a um fortalecimento tanto da comunidade em si quanto da própria empresa. Ambos os lados passam a compartilhar informações, experiências, acertos e desacertos. Colaboratividade e compartilhamento de informações é a chave, e o próprio SERPRO parece ter entendido isto.

É interessante, também, observarmos tudo isto através de um outro prisma, e tentarmos enxergar que um dos pontos interessantes disto tudo é que a redução de custos é algo que provoca diversas reações em cadeia, reações estas que podem se reverter em menos gastos em diversos âmbitos, para todos. E isto, em se tratando de projetos voltados à inclusão digital, por exemplo, é algo crucial e que acaba se revertendo em benefícios para muita gente: integradores, desenvolvedores e o usuário final. E se cada vez mais governos e empresas estão aceitando este fato, é sinal de que a “coisa é séria” e veio para ficar, e não é apenas uma moda passageira, como alguns poucos (ainda bem) querem fazer parecer.

Acredito sinceramente que um futuro promissor está se aproximando, e que não só o SERPRO, mas diversas outras empresas, governamentais ou não, acabarão por entender que o software livre é a melhor e mais justa opção, se quisermos um mundo onde a informação será um bem comum a todos, e não refém de algumas minorias que a controlarão em nome de seus interesses próprios e escusos.

Meus parabéns ao SERPRO!

Fonte: Movimento Software Livre Paraná

Informações adicionais

Site oficial do SERPRO:

http://www.serpro.gov.br

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5 Responses to “SERPRO – Reforçando as “fileiras” do software livre”

  1. [...] tantos outros setores do governo brasileiro caminhando em sentido contrário, como por exemplo o SERPRO, o TRE e mais recentemente o governo do estado do Paraná. Ou será que sempre esperamos [...]
  2. [...] que imaginamos, não só em organizações privadas mas também em órgãos públicos e governos. O SERPRO fez a sua parte, o TSE não ficou para trás, e agora é o governo do Paraná que dá um passo decisivo em [...]
  3. [...] setores do mesmo) caminha a passos largos. Há alguns dias atrás postei um artigo a respeito da preferência que o SERPRO dará ao software livre, e agora é fato comprovado que as urnas eletrônicas brasileiras utilizarão Linux já a partir [...]
  4. [...] quando nos lembramos do tamanho do órgão e da quantidade de dados processados pelo mesmo, o qual é considerado uma das maiores organizações de tecnologia da informação e comunicações …, e responsável pelo desenvolvimento de aplicativos e processamento de dados do governo e da [...]
  5. [...] É um período super propício para tal opção por parte do SERPRO, entidade, aliás, que sempre teve uma “queda” pelo software livre. E, nos últimos dias, convenhamos, o que não faltam são (boas) notícias envolvendo o software [...]

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